Droga roubada na BAC da Praia: PJ suspeita dos próprios agentes da BAC

17-07-2011 18:05

 

A PN e a PJ estão ainda no encalço dos autores do roubo de três quilos de cocaína que estavam guardados nas dependências da Brigada de Investigação Criminal da Praia. A porta do compartimento foi arrombada na noite deste domingo, e desapareceram três pacotes de droga que a PN iria entregar à PJ, nas primeiras horas de segunda-feira, 11.

Droga roubada na BAC da Praia: PJ suspeita dos próprios agentes da BAC

A maneira como tudo aconteceu mostra que os ladrões estariam na posse de informações seguras sobre o local onde o estupefaciente estava guardado e da intenção da Polícia Nacional de fazer a sua entrega à polícia científica logo no período da manhã. Fonte da PN garantiu a este semanário que apenas essa quantidade estava guardada na Esquadra da BAC da Praia, e fazia parte da cocaína que tem dado à costa nas praias do Município de S. Miguel, interior de Santiago, nos últimos dias.

Até este momento, cerca de doze quilos da cocaína encontrada por populares em S. Miguel foram recuperados, em acções principalmente da PN, que fez, por sua vez, a entrega do produto à Polícia Judiciária. Os três pacotes de um quilo desaparecidos este domingo deveriam seguir o mesmo destino.

Por enquanto, a Polícia Nacional nega falar abertamente do caso. A única informação que transpirou para fora é que já foi aberta uma investigação conjunta com a PJ. Mas, até esta quarta-feira, ainda ninguém tinha sido preso, fosse no decurso deste último episódio, fosse em relação às malas recheadas de cocaína que apareceram misteriosamente nas praias de S. Miguel no início deste mês. Ninguém sabe ainda a proveniência nem tão-pouco a razão de tanta droga ter sido atirada ao mar. Especula-se, no entanto, que esta tenha sido um acto de desespero de tripulantes de alguma embarcação que recearam ser flagrados pelo Navio Vigilante da Guarda Costeira. É que hoje as coisas estão a mudar nos mares de Cabo Verde, desde que esse navio-patrulha inteiramente restaurado voltou ao serviço das Forças Armadas. Segundo o Tenente-Coronel António Duarte Monteiro, as FA estão a fazer um patrulhamento mais dinâmico da Zona Económica e Exclusiva de Cabo Verde.

No passado dia 23 de Junho, o “Vigilante” prendeu e escoltou o navio Alemão Transporter da ilha da Boa Vista para o Porto da Praia, por ter entrado de forma ilegal nas águas cabo-verdianas e negado acatar uma ordem da Guarda Costeira no sentido de abandonar a praia de Santa Mónica e apresentar-se perante as autoridades marítimas. A ordem foi emitida no dia 21 de Junho, durante um sobrevoo da ilha da Boa Vista por um avião da Força Aérea Portuguesa e que levava a bordo o próprio Tenente-Coronel António Monteiro. Segundo o Comandante da Guarda Costeira, o barco estava ancorado numa zona proibida e os tripulantes negaram acatar a ordem de abandonar imediatamente o local para resolver a sua situação com o Instituto Marítimo e Portuário. Em resposta ao desacato, o “Vigilante” viajou da ilha do Sal até à Boa Vista e escoltou o barco ao Porto da Praia. As autoridades aplicaram uma coima de mil e quinhentos contos à embarcação, que foi depois libertada. Dias depois, a Guarda Costeira abordou um iate com três tripulantes, que estava entre as ilhas de Santiago e de S. Nicolau. Mas nenhuma droga foi encontrada a bordo. “A Guarda Costeira não pode fazer o jogo da especulação e dizer que a droga que apareceu em S. Miguel foi lançada ao mar por causa de Vigilante. O certo é que a recuperação do navio tem-nos permitido fazer um patrulhamento mais intenso da nossa ZEE e isto pode colocar mais respeito a pessoas mal intencionadas”, diz o Comandante da Guarda Costeira. Segundo António Monteiro, esta unidade das Forças Armadas tem feito patrulhamento na zona de S. Miguel, na expectativa de ajudar a resolver o enigma da carga de droga, mas sem sucesso.

Desconfia-se que a droga tenha sido lançada ao mar por este iate ou então pelo navio Alemão Transporter. Só que tudo não passa ainda de conjecturas. O certo é que várias pessoas conseguiram recolher parte da cocaína que surgiu na zona marítima de S. Miguel. Cerca de doze quilos do pó branco recuperados pela PN foram entregues na PJ, que está a investigar o assunto.

Essa “móia de droga” despertou a curiosidade tanto das autoridades como de alegados traficantes da Capital. Segundo apurou este jornal, o movimento de pessoas suspeitas de estarem ligadas ao narcotráfico aumentou consideravelmente nestes dias em S. Miguel. Os carrões dos barões circulam constantemente de um lado para o outro. Há até os que já montaram acampamento nas Praias de Veneza. O problema é que as autoridades policiais não sabem ao certo quanta droga foi lançada ao mar, quem fez isso e por que razão.

PJ suspeita da própria BAC

Para a polícia científica cabo-verdiana, que confirma estarem investigações em curso, existem já indícios comprometedores de que três indivíduos escalaram o muro que dá acesso à sala do comandante da BAC (onde estava guardada a droga) no primeiro andar, e apanharam as três saquetas de droga. Os indivíduos estavam encapuzados, o que torna difícil a sua identificação visual, mas um deles foi captado com mais detalhe pelas câmaras de segurança existentes no local. Além disso, as impressões digitais e outras pistas colhidas pela PJ levam a encarar como principais suspeitos os próprios elementos da BAC. “É um caso estranho. Até porque quem roubou essa droga sabia bem onde ir buscá-la e como chegar lá. E isso só pode ser quem conhece bem os cantos à casa. “É um ladrãozinho”, como se costuma dizer em linguagem popular”, comenta a fonte da PJ.

Aliás, essa fonte estranha o envolvimento da PN neste caso que é claramente da alçada da PJ. “Pior ainda é que desde o início fala-se em posturas de duvidosa legalidade por parte de elementos da BAC – primeiro foram actuar num terreno sem que o próprio comando da Calheta tivesse conhecimento da sua presença no local. As notícias vindas a público em como dois agentes da BAC naturais da Calheta terão comprado a populares alguns pacotes de droga, só vêm adensar ainda mais este mistério que ronda a promiscuidade entre a função de agente da lei e a de um traficante de droga, logo um delinquente”. E há antecedentes. Há uns meses desapareceram dessas mesmas instalações da Brigada Anti-Criminal (BAC) 27 mil euros em dinheiro e uma quantidade considerável de ouro. Tudo, apreensões feitas pela unidade e que deveriam ser entregues às autoridades competentes. “Pelos vistos os ladrões descobriram que na “toca do lobo” o negócio do roubo é mais rentável”, comenta a nossa fonte.

Mas a PJ pretende levar essa investigação a fundo, até às últimas consequências, quanto mais não seja para tirar a limpo a dignidade de uma corporação que, apesar de há muito ser apontada como tendo no seu seio alguns elementos “desviantes”, ainda é vista com muito respeito pela sociedade civil cabo-verdiana que não pára de aplaudir o seu trabalho na luta contra a delinquência e o submundo do crime que afinal existe em Cabo Verde.